Mulheres se reúnem em Recife para Seminário Nacional sobre cadernetas agroecológicas

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O evento foi organizado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em parceria com o GT Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), o Núcleo Jurema de Feminismos, Agroecologia e Ruralidades (UFRPE), o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM), e com apoio da Secretaria Especial de Agricultura Familiar do Desenvolvimento Agrário (SEAD).

Estavam presentes Sheyla Saori (SOF), Vanilda Santos e Darzi Mota (agricultoras) e Isabelle Hillemkamp (IRD), que trouxeram a perspectiva da atuação no Vale do Ribeira na construção da autonomia econômica das mulheres. Na cidade de Barra do Turvo, no Vale, já são várias as mulheres que incorporaram a caderneta agroecológica na organização de sua produção.

Mas o que são as cadernetas?

As cadernetas agroecológicas são um instrumento de anotação e organização das mulheres sobre sua produção, para que seu trabalho seja desvalorizado ou se torne invisível.  Sobre o uso das cadernetas, Vanilda disse que “foi importante porque foi um jeito da gente ver a quantidade de produtos que a gente produz e o valor deles. Antes não se dava importância para o valor por serem produtos que a gente mesmo planta, colhe, e acha que valor é só aquele que vem do mercado. Colocando na caderneta deu para ver o valor que tem, a quantidade que a gente tira da roça, em volta da nossa casa, com o trabalho da gente”.

Darzi também trouxe suas reflexões: “anotar na caderneta é muito bom para a gente aprender a valorizar o que a gente tem no nosso quintal, em casa. Porque às vezes a gente consumia tudo aquilo e não dava valor. Hoje, anotando, a gente percebe o quanto a gente deixou de gastar no mercado para consumir nossos próprios produtos, que são todos de qualidade e sabemos que não têm agrotóxico, veneno”, disse ela.

As cadernetas como instrumento de transformação

Durante o Seminário, apareceram elementos como a importância das cadernetas como instrumentos para a auto organização dos grupos de mulheres. Além de visibilizar a produção, a função das cadernetas agroecológicas também se desdobrou em outras, como o acesso a políticas públicas (DAP, PNAE e PAA, por exemplo), e a valorização da produção permitiu maior poder de negociação nos mercados e outras organizações locais. Além disso, as anotações permitiram olhar de outra maneira, mais atenta, para o tempo dos trabalhos produtivos e reprodutivos.

A SOF acompanhou o projeto das cadernetas agroecológicas através do GT de Mulheres da ANA. Para Sheyla, “foi muito importante integrar, no sentido de movimento, os trabalhos das agricultoras do Vale com uma articulação nacional de mulheres. Assim pudemos nos conectar com mulheres que também anotaram nas cadernetas e que enfrentam os mesmos desafios da visibilidade do trabalho, da valorização da produção e da necessidade de acessar mercados”. Sobre o Seminário, a agricultora Vanilda concluiu: “voltarei mais contente ainda para minha casa, minha roça”.